domingo, 17 de outubro de 2010

Origami no Cabo Horn - Sexta Parte


                                                 
VI


      Por alguma razão, quando informávamos alguém sobre nossa expedição, o resultado invariável era incredulidade com um quê de escárnio. Nas ocasiões em que dependíamos do informado para algo importante, não-raro a situação ganhava contornos dramáticos. Foi assim que Antocha quase quebrou o pescoço de um dono de armazém, que, não obstante termos lhe reiterado nossa necessidade de mantimentos de primeira ordem, não queria se desvencilhar de todo seu estoque de vinho “para um bando de gringos loucos”. Eu, por natureza inclinado a noções seculares de cordialidade e cavalheirismo, tentei conter a situação o máximo que pude dentro do âmbito diplomático. Como, porém, o vendedor motrava-se irredutível no seu ponto de vista equivocado, não hesitei em deixar Antocha esmurrar-lhe a fuça – mesmo porque, tentar impedi-lo seria tarefa das mais temerárias.

      Conto isso porque, ao passarmos de manhã pela fina costa atlântica do Chile, fomos abordados de maneira não muito delicada por um grupo de policiais da guarda costeira daquele país, que insistiam em nos rotular como...enfim, de muitas coisas simultâneas mas não muito esclarecedoras, nem a eles próprios. Ali e mais uma vez, nossos planos expedicionários (contornar o Cabo Horn física e simbolicamente, fazendo uma homenagem póstuma ao grande navegador Willem Schouten) não tiveram o crédito devido. Quando conheceram Manolo, a situação cresceu em tensão e complexidade. O fato de haver um argentino (portenho!) entre nós foi o bastante para os guardas chilenos ressignificarem sua aborrecida operação de rotina num ato prazeroso e degustativo de humilhações diversas. Primeiro, nos cobraram explicações detalhadas sobre o nome da embarcação. Repetimos a ladainha oito ou nove vezes; uma delas – pediram a Pelé - em chinês cantonês. Em seguida, fizeram com que espalhássemos todos os nossos pertences pelo convés, obrigando Manolo a contar e recontar tudo o que levávamos, até o mais ínfimo broche enferrujado (o mais curioso foi constatar que todos haviam tomado algum pertence de Dr.Sigmund Herrera para si – isso causou algum constrangimento, mas também houve quem risse). Depois foi a vez de testar se El Niño sabia calcular: mandaram-no dividir o número total de pertences por todos os números primos até cinqüenta e nove. Claro que ele não passou do cinco, e todos tivemos que ajudar. Sobre Antocha, basta dizer que estava de ressaca e, como não entendesse nada do que acontecia, deitou-se gemendo e assim permaneceu. Os policiais foram compreensivos, como se deve ser na presença de alguém que está à beira da morte. No fim, pulamos alguns polichinelos e ficamos livres.

      Felizmente conseguimos esconder dos policiais a identidade de El Niño - certamente iriam querer espancá-lo. Disse a eles que o garoto era filho de Karl, o que lhes pareceu bem convincente, visto que alemães são quase extraterrestres. Se bem que no meio dos cálculos começasse a chover granizo, mas acho que nunca ligaram uma coisa à outra. Quando partiram, depois de apreender algumas garrafas de vinho e um par de meias Armani de Pelé, o céu estava azul.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Origami no Cabo Horn - Quinta Parte



V


Depois de termos convidado Dr. Sigmund Herrera a se retirar, nossa sorte mudou drasticamente. Pela primeira vez desde o início da viagem, pude escutar o som do mar. Num dado momento, avistei uma família de baleias migrando. Emocionado, escrevi uma poesia:


Do fundo das águas turvas,
Emerge um dorso antigo.
Na cinzenta cauda bifurcada,
Dois mundos e dois tempos
Insolúveis, inacessíveis,
Espiam a alvorada.

Chegando mais perto, descobri que não eram baleias, só um monte de entulho. Mesmo assim, nossa sorte era esmagadora. No meio do lixo, encontramos um aquecedor portátil seminovo.  Pelé encontrou um Ray-Ban e ficou parecido com o presidente da Coréia do Norte. Com o cigarro enfiado na boca, era um capanga da Yakuza. Sem o cigarro e o Ray-Ban, era Pelé. Estávamos rindo disso, quando Antocha pescou seu terceiro marlin em menos de quatro horas. Esse era maior que Karl. Passamos a ter comida para uma semana, mas nenhuma gota de álcool - e destilados e fermentados não podem ser pescados. Mas o destino estava do nosso lado: Manolo descobriu no porão uma caixa com 500 pesos em dinheiro, e decidimos parar para comprar mais Mendozas.

Aportamos numa pequena cidade cujo nome é desimportante. Desembarcamos, encontramos um mercado, compramos todas as garrafas, vendemos o aquecedor, compramos mais garrafas, alguns mantimentos e retornamos. Foi quando encontramos El Niño. Era um pivete com cara de índio que perguntou se não poderia vir conosco. Percebi que estava nervoso, olhando para os lados repetidas vezes. Por alguma razão, sentia que conhecia o pivete de algum lugar. Ele contou que algumas pessoas queriam espancá-lo, por isso precisava fugir. Manolo, ao saber de quem se tratava, também quis espancá-lo. Antocha também. Confesso que também pensei em espancá-lo, mas tive pena e aceitei El Niño como tripulante, não permitindo que o agredissem. Afinal, a sorte estava do nosso lado. Karl não gostou da idéia – Karl é um pouco teimoso –, dizendo que era uma imbecilidade levar El Niño como tripulante num barco rumo ao Cabo Horn. Rebati com uma citação da Arte da Guerra:


Mantenha os amigos por perto, e os inimigos mais perto ainda.


Karl concordou, mas observou que não teríamos outra oportunidade de nos livrarmos dele, o que nos tornaria, de certa forma, reféns do El Niño. Refleti um pouco, e disse a Karl que sempre teríamos a opção de convidá-lo a se retirar, como fizemos com Dr. Sigmund Herrera. Isso deixou Karl mais calmo. Já Manolo, não. Precisava arrumar alguma coisa para se preocupar.  Agora que o barco estava novamente sadio e funcional, e que Pelé tornara-se um pouco menos estranho, buscava um novo alvo para extravasar sua neurose obsessiva. Não cedi.

Faltava pouco para atingirmos o Cabo. Passando a latitude das ilhas Malvinas, entramos no estreito domínio chileno que corta o sul da Argentina, e o frio era algo que não se podia ignorar. Como toupeiras, passávamos a maior parte do tempo enfurnados na casa de máquinas, jogando cartas, bebendo e gaguejando - já que nossos maxilares batiam ininterruptamente. Uma vez mordi a língua e saiu um pedaço pequeno. Também descobrimos que El Niño era um excelente entertainer. Hiperativo, nos divertia com suas imitações. A melhor de todas era a da massa de ar quente perdida nos Andes. Era tão interessante que até Manolo ria. Num raro momento de sobriedade, alguém perguntou por que tínhamos vendido o aquecedor. Como houvesse muitas versões conflitantes, mudamos de assunto.




segunda-feira, 10 de maio de 2010

Origami no Cabo Horn - Quarta Parte


 
IV
Karl começou a cantar My way. Sempre que está nervoso, Karl canta Sinatra. É um sinal de que as coisas não vão bem. Karl sempre foi um medidor natural de periculosidade. Quando no Camboja descobrimos que estávamos acampados sobre um campo minado, Karl cantou Sinatra. Quando numa caverna da Guatemala a luz da nossa última lanterna piscou e se apagou, Karl cantou Sinatra. Pensamos que sairíamos do iceberg em poucos dias, mas já estávamos há quase duas semanas encalhados. Quando Karl cantou My way, senti um arrepio na espinha.
Seria perda de tempo narrar aqui todos os terríveis acontecimentos que, somados, culminaram na expulsão de um dos tripulantes da embarcação. Por isso me aterei a três eventos especialmente desastrosos.
O primeiro deles – mas não o pior – foi a dura constatação de que o Mahangaatuamatua Von Scheissendorf jamais sairia do lugar.  Manolo passou dez dias morando na praça de máquinas, desmontando e remontando tudo inúmeras vezes, compulsiva e metodicamente. Mesmo assim, não compreendia por que o motor não funcionava. Frustrava-se. Aos poucos, seu desespero natural deu lugar a um comportamento selvagem e amedrontador. De Dr. Jekyll passou a Mr. Hyde. Tinha crises nervosas terríveis. Arremessava-se repetidas vezes contra a parede, muitas vezes de cabeça. Arrancava e depois comia o próprio cabelo, asfixiando-se. Tentava bater em Pelé com a chave inglesa, numa raiva primitiva. Tais crises eram apenas aplacadas quando Antocha o espancava. Nessas horas Pelé ria, chegava a gargalhar. Depois tossia por vários minutos, curvando-se até o chão – não é bom engolir cigarros.
O segundo evento trágico foi o fim de nossas reservas alcoólicas, que desencadeou uma sucessão de infortúnios. Aconteceu pelo sexto ou sétimo dia. Pouco antes, havíamos melhorado consideravelmente nosso cardápio, adicionando às nossas refeições um novo ingrediente – pingüim. Além de observá-los, passamos a comê-los. Como não suportávamos mais os ensopados de Antocha, nosso ânimo melhorou bastante. Além disso, era natural que comêssemos os pingüins. Estavam sempre pelo convés ou em volta do barco, de modo que bastava alguém esticar o braço, apanhar um e jogar na panela. Foram dias de grande fartura. Pena que durou pouco. Com o tempo, os pingüins se tornaram ariscos e raramente pegávamos algum. Tivemos que voltar ao ensopado, o que frustrou a todos. Quando o vinho acabou, foi como se uma bomba explodisse. Houve choro e ranger de dentes. E a culpa foi toda minha. Mais cedo ou mais tarde o vinho iria acabar, mas eu acelerei o processo. Desde que encalhamos, tomava a precaução da manter Dr. Sigmund Herrera sempre bêbado, de modo a torná-lo mais suportável e a fazê-lo dormir mais cedo e por mais tempo. Foi para o bem de todos.
O terceiro e o pior dos eventos foi um desdobramento do segundo. Quando o vinho acabou, Antocha entrou em depressão profunda. Prevendo que aquilo logo se transformaria em música, atirei seu acordeom no mar. Não tenho culpa pelo que aconteceu. Não podia saber que com isso cometia um crime contra a tripulação. Não podia saber que Antocha também possuía uma gaita. Meu estômago se revirou. Poucos instrumentos musicais possuem um poder destrutivo tão acentuado quanto a gaita. Quando ativada de maneira irresponsável, a gaita emite uma onda vibratória que causa irritação crescente e pode levar à loucura. Certa vez, na Austrália, presenciei uma expedição inteira de homens honestos sucumbir ante o efeito devastador de uma gaita de fole escocesa. O mesmo se repetia agora. Por causa dela, o mau-humor se alastrou pela tripulação de forma irreversível, e a expedição tornou-se um pesadelo com gosto de xarope, espesso e enjoativo. Os monólogos de Dr. Sigmund Herrera passaram a ter um tom queixoso que os tornava insuportáveis ao extremo. As galáxias passaram a reclamar do frio, as nebulosas da comida, e a matéria escura da claridade do iceberg. Karl e eu tramávamos. Por mais de uma vez tentamos roubar o instrumento de Antocha, mas ele estava muito desconfiado, sabia que seu acordeom não havia simplesmente desaparecido. Dormia com a gaita na cueca. A situação era desesperadora. A tensão, crescente. Foi aí que Karl cantarolou Sinatra, caminhando pelo convés. Era um momento crítico. Algo iria acontecer. Depois disso, como imaginei, as coisas atingiram um clímax.
Não lembro exatamente quem primeiro levantou a possibilidade de estarmos amaldiçoados. Também não sei quem primeiro sugeriu que Dr. Sigmund Herrera era nossa maldição. O que importa é que todos acataram com facilidade essa idéia. De fato, era uma idéia bastante razoável. Não havia outra possibilidade. Decidimos nos livrar de Dr. Sigmund Herrera. Ele, claro, discordou. Insisti, porém, que fizéssemos uma votação, para que nossa resolução fosse justa e democrática. Votamos. Havendo apenas um voto contra, nos juntamos, agarramos Dr. Sigmund Herrera e o arremessamos para fora do barco, na água. Então Manolo deu a partida no motor, que voltou a funcionar. Gritamos. A maldição havia acabado. Também houve muita alegria e surpresa quando, logo em seguida, o gelo sob a embarcação rachou e nos devolveu ao mar. Estávamos livres. Nos abraçamos e festejamos ainda mais. O dia estava claro, nossos espíritos renovados e a gaita de Antocha jazia agora num de meus bolsos – fui rápido e eficiente. Dr. Sigmund Herrera pedia para voltar, mas nós o ignoramos. Ajustada a rota, partimos.



sábado, 1 de maio de 2010

Origami no Cabo Horn - Terceira Parte



III

         O Mahangaatuamatua Von Scheissendorf era bastante barulhento. Mas isso foi apenas no início. Passados alguns dias, sequer lembrávamos que havia um motor a bordo. O som tornara-se parte da paisagem, algo inerente à vida, uma espécie de background inquestionável. De modo que, quando o barco parou, ninguém notou. Apenas Manolo ficou preocupado com o fato de a chaminé não expelir mais fumaça. Tentava desobstruí-la desesperadamente – Manolo estava sempre desesperado, sempre entupido de mate. Era um homem doente.

        Foi Pelé quem primeiro percebeu que o barco não se movia. Mas viu Manolo na  chaminé e achou que todos já soubessem. Ofendido por fazer papel de idiota, largou o timão e foi dormir. Alheio a tudo isso, eu continuava na proa, vasculhando o Atlântico Sul e sonhando que Dr. Sigmund Herrera perdia a voz para sempre. Foi então que avistei um iceberg. Um belo, majestoso iceberg. Azulado, gigantesco e salpicado de pingüins. Deslizava lentamente rumo ao nada. Acompanhando-o com minha luneta inglesa, entrei numa espécie de êxtase estético kantiano. Perdido em meu juízo reflexionante, não ouvia mais a ladainha de Dr. Herrera sobre os buracos de minhoca espaço-temporais, nem a música deprimente de Antocha. Tampouco ouvi os gritos de Karl, sugerindo que iríamos bater. Contemplando aquela montanha branca, aquela forma absurda e onírica, pensava em como a natureza parece ter algum sentido além do nosso entendimento. Parece querer nos dizer alguma coisa. Permaneci nesse estado romântico por algum tempo, até me deter nas pupilas quadradas dos pingüins. Aquilo me pareceu anormal. Não as pupilas em si, mas o fato de conseguir enxergá-las. Confuso, lembrei de Pascal: Nem o microscópio e nem o telescópio nos aproximam das coisas em si. Certo. A não ser, pensei, que as coisas se aproximem por vontade própria. Senti um pouco de frio. Foi quando descobri, tirando a luneta do rosto, que estávamos a pouco mais de duzentos metros do gelo. Fiquei profundamente magoado. Por que não me avisaram? Quando me virei para falar com Pelé, notei que a sombra do iceberg já cobria todo o barco. Não havia mais ninguém no convés, ninguém no timão. Então Karl apareceu na porta da cabine e perguntou se eu não gostaria de me amarrar em alguma coisa lá dentro, como o resto da tripulação já havia feito. Aceitei.

        Como todos sabem, um iceberg possui aproximadamente nove décimos do seu volume submerso. Pensávamos que bateríamos de frente, mas na verdade encalhamos. O gelo submerso era mais raso do que pensávamos, e o barco apenas subiu um pouco, rangeu e adernou para a direita. Nada disso foi mito suave, e o fato de estarmos mal amarrados teve suas conseqüências. Antocha quebrou um dente e Pelé engoliu o cigarro. Manolo e Dr. Sigmund Herrera, embolados um no outro, xingavam em espanhol. Eu e Karl tivemos sorte, e o corpo dos outros tripulantes absorveu nosso impacto. Mal ou bem, todos se salvaram. Infelizmente o mesmo não aconteceu com nossos Mendozas. Uma boa parte das garrafas se quebrou. Tal perda teria conseqüências desastrosas num futuro próximo. Desnorteados e temerosos, escalamos o convés inclinado e fizemos um balanço da situação. Estávamos encalhados num bloco de gelo gigante, rodeados por pingüins barulhentos e a vários quilômetros da costa. Não tínhamos rádio, e a chance de um pedaço de gelo despencar sobre nossas cabeças e nos esmagar era considerável. Preocupado, distribuí tarefas. Solicitei a Manolo um laudo técnico do motor. Solicitei a Pelé que avaliasse o estado do casco. Solicitei a Dr. Sigmund Herrera que explorasse o iceberg o mais detalhadamente possível e durante muitas horas. Enganei-o dizendo que faríamos um mapa. Antocha, chupando gelo, pôs-se a pescar nosso almoço e Karl arranjou uma nova diversão: escorregar pelo convés. Era uma cena interessante. Pensando qual seria a utilidade daquilo, decidi estudar nossa posição. Concluí que devíamos estar próximos a Puerto San Julian ou Puerto Santa Cruz. Pensando qual seria a utilidade disso, juntei-me a Karl. Dias negros viriam.


domingo, 11 de abril de 2010

Origami no Cabo Horn - Segunda parte




 II
A viagem mal havia começado, quando algo terrível aconteceu: ao me debruçar sobre a proa, tentando encostar o nariz no casco o mais próximo possível da água, percebi que nossa nau não tinha nome. O antigo já estava ilegível, de modo que precisávamos rebatizá-la – e com urgência. Uma nave sem nome é uma maldição, um veículo caótico a serviço do desastre. Dependurado no casco, gritei de terror. Subi, e após refletir alguns minutos sobre a questão, reuni a tripulação e apresentei o problema, já introduzindo minha proposta. A meu ver, o nome da embarcação deveria ser forte, simples, poético, plural, marinho, reverente, bravo, claro, sintético, funcional, camoniano, neutro, apaziguador, célebre, catártico, direto, audaz, primitivo, simbólico, operacional, intertextual, nobre, festivo, naïf, expressivo, correto, sonoro, libertário, espirituoso, Sturm und Drang, coquete, austral, roxo, inspirador, referencial, sincero, altivo, socrático, mítico, salutar, belo e objetivo. Por isso pensei em Mahangaatuamatua, a sagrada canoa maori.  Após curto silêncio, todos fizeram sons guturais estranhos – o que encarei como um “sim, é perfeito”. Apenas Karl se opôs – como disse, Karl é um pouco teimoso. Achava o nome longo demais. Respondi que não era mais longo que Von Scheissendorf. Karl disse que era uma pessoa, não um barco. Eu disse a Karl que ele não era nem uma pessoa e nem um barco, mas um idiota. Então Karl me deu um soco e começamos a rolar pelo convés.Vinte segundos depois, paramos. Rolar não é uma boa idéia quando se está num barco. Ficamos tontos, enjoados e nos vomitamos. Todos riram muito daquilo, e por fim batizamos o barco de Mahangaatuamatua von Scheissendorf.
                O lado ruim de vomitar em seu único casaco é que, caso você esteja navegando para um círculo polar, não poderá contornar a situação usando duas ou três camisetas a mais. À noite, enquanto nossos casacos secavam da lavagem, Karl e eu abraçávamos os motores na praça de máquinas e rezávamos para que o dia seguinte não fosse tão frio. A probabilidade, claro, era muito pequena. Pelo menos tínhamos nossos vinhos Mendoza.
A viagem prosseguia, e os dias se tornavam terrivelmente repetitivos. Passava boa parte deles esquadrinhando o horizonte com minha luneta inglesa, procurando icebergs e baleias, ou qualquer coisa digna de interesse, sem muito sucesso. Dr. Sigmund Herrera ficava ao meu lado, tomando banho de sol sem camisa e monologando coisas enfadonhas sobre o cosmos. No início conversávamos, mas depois percebi que era desnecessário. Nosso cozinheiro, Antocha, era um russo standard: bruto, alcoólatra e tocador de acordeom. Um dia pedi para Antocha tocar um pouco, e ele nunca mais parou. Foi um grande erro. Às vezes tocava e chorava, dependendo da bebedeira. Mas pelo menos sabia cozinhar. Já nosso engenheiro Manolo passava os dias checando ininterruptamente cada parafuso da embarcação. Era uma pessoa doente, um argentino que detestava tango. Pela saúde mental da tripulação, encarreguei-o de pintar o nome do barco. Como não houvesse tinta, usamos fita engomada (um rolo inteiro).
De todos, Karl era o único entusiasmado. Depois de nossa briga, descobriu um passatempo curioso: tentar se comunicar com Pelé, nosso marinheiro chinês. De fato, aquilo parecia ter algum sentido. Ninguém sabia ao certo como Pelé tinha aparecido na embarcação. No começo, achei que era um conhecido de Antocha, e Manolo estava certo de que fugia da máfia chinesa, baseando sua teoria no fato de Pelé não possuir a ponta do indicador direito. Verdade ou não, era realmente uma figura estranha: ria de tudo, fumava compulsivamente e preferia sentar-se no chão. E ainda se chamava Pelé. Mas como parecia entender de navios, ficou responsável pelo timão. Karl realmente se dedicava. Acho que se sentia um pouco como aqueles cientistas que estudam de perto os grandes primatas. Desconfio que Pelé sentisse o mesmo a respeito de Karl. Dentre as muitas coisas que Karl descobriu, estava o importante fato de que Pelé era, de fato, chinês. Perdeu parte do dedo quando costurava uma bolsa Prada perto de Xangai. Já que estava manchada de sangue, a bolsa não poderia mais ir para Londres, e Pelé foi despedido. Como na China o valor de um dedo é maior que o valor de um cérebro, acabou imigrando para Buenos Aires - tinha uns parentes lá. Foi quando trabalhou no porto e aprendeu alguma coisa de navegação. Um dia, bebeu demais e acordou em nosso barco. Quando Karl lhe disse para onde estávamos indo, ele apenas riu. Imediatamente senti grande afeição por ele. Talvez fosse apenas um ignorante em geografia, mas tinha fibra de desbravador. E sobre seu nome, perece que era Pelé mesmo. Assombroso.
Os dias se arrastavam, o tempo estava bom, e não passava uma só noite em que não nos embebedássemos. Foi quando o barco parou. 


sábado, 3 de abril de 2010

Origami no Cabo Horn - Primeira Parte

                
                                                       
I   

O Cabo Horn é um local fascinante! Contornada pela primeira vez em 1616 pelos holandeses Jacob Le Maire e Willem Schouten, a quina sul da América é um convite a belos passeios e aventuras inesquecíveis sobre a rocha. Certa vez, num convescote na Bavária com meu amigo alemão Karl von Scheissendorf propus, entre um biscoito amanteigado e outro, uma expedição ao local. Juntaríamos alguns tripulantes num pequeno barco e partiríamos da Argentina. No caminho, faríamos uma emocionante homenagem póstuma a Le Maire e Schouten, assistiríamos à migração das baleias e dos icebergs e beberíamos vinho de Mendoza. Poderíamos até conhecer o El Niño. Karl prontamente aceitou, embora sua esposa, Frau Scheissendorf insistisse que fatalmente iríamos morrer. Argumentava que as tempestades locais, com ventos infernais de 50 nós, que emborcam navios, não eram apropriadas para pessoas que sequer sabiam nadar. Rimos e tomamos nosso chá.
Frau Scheissendorf não gostava de mim. Quase a deixei sem marido umas vinte vezes. Acho que começou a me odiar pra valer quando Karl voltou do Iêmen com uma bala na bacia e muita febre. Conheci Karl quando escalava o Matterhorn, nos Alpes. Houve uma avalanche e fiquei soterrado por várias horas, até que Karl por sorte pisou na minha coxa. Karl costumava escalar o Matterhorn – é montanhista, ao contrário de mim. Os pinos de ferro da bota machucaram bastante, e eu gritei. Ele notou que havia pisado em algo diferente e me cutucou com a vara de metal, o que me fez gritar várias outras vezes. E assim nos tornamos grandes amigos. Karl e eu realizamos memoráveis expedições juntos.
Montamos base em Buenos Aires no final de abril. Lá, reunimos a tripulação e definimos a rota. O único problema era o barco. Não tínhamos um. Passamos uma semana visitando estaleiros e conversando com gente do ramo, mas simplesmente não dava certo. Todos invariavelmente começavam a rir e nos indicavam algum barco grande, bonito e absurdamente caro. Estávamos quase dando o braço a torcer, quando finalmente encontramos a nave ideal. Próximo à nossa residência havia um pesqueiro à venda. Era um barco velho, enferrujado e de terceira mão. Sugeri que comprássemos, mas Karl se recusou – Karl é um pouco teimoso. De modo que fui obrigado a lhe explicar, pela centésima vez, meu ponto de vista: precisávamos de um barco macio, marcado pela vida no mar, confiável, que permitisse que pessoas inexperientes, como nós, navegassem no Cabo Horn. Argumentei que o fato de o barco não possuir rádio não era um grande problema. As chalupas viking também não possuíam, o que não impediu os vikings de chegarem ao Canadá no século X. Quanto à ferrugem e ao barulho (era bastante barulhento), eram detalhes estéticos. Diante desses argumentos, Karl compreendeu qual de nós estava sendo estúpido e compramos o barco.
Partimos no meio de maio, rumo ao sul. Nossa tripulação internacional de seis homens era composta por - além de mim e de Karl - Antocha, nosso cozinheiro russo; Manolo, nosso engenheiro e Dr. Sigmund Herrera, o astrofísico da embarcação – ambos portenhos, além de Pelé, o marinheiro chinês. Na carga, 150 garrafas de vinho (tínhamos um russo a bordo). Em alguns dias atingiríamos o Cabo Horn, latitude 50°.

sábado, 27 de março de 2010

Lembranças de Sumatra e Gobi



            O mundo é um local fascinante. Não importa de onde se parta, há sempre um lugar para se chegar. E como são extraordinários os lugares que não conhecemos! Que frescor de informações! Sinto um arrepio na espinha e uma dor enorme na patela esquerda ao recordar minha primeira expedição. Éramos seis jovens idiotas à procura de diversão e mulheres, mas também cinco almas sedentas de achados inenarráveis pelas bordas do mundo. Naquele ano (não me atrevo a dizer qual), estávamos decididos a encontrar a nascente do Sungai Hitam, um rio desimportante localizado numa inóspita ilha vulcânica perto de Sumatra. Foram cinco meses de horrores e penúria absoluta até encontrarmos o quase invisível filete d`água que pingava da rocha. Apenas uma parte do grupo estava presente: eu - que já não possuía a vesícula, extraída numa cirurgia improvisada com um zíper de calça - e mais dois companheiros - ambos padecendo de estranhas pústulas nas axilas e na virilha. Os demais haviam morrido. Não obstante, aquele foi um momento de grande alegria. Tiramos nossas mochilas (os que conseguiam), nos cumprimentamos cordialmente, registramos nossos nomes a giz na rocha ao lado (a máquina fotográfica havia molhado no caminho), lemos alguns trechos de Thoreau e Humboldt, nos abraçamos cordialmente, vestimos nossas mochilas e voltamos. Logo nos perdemos e sofremos mais um mês de privações agudas, quando finalmente fomos resgatados pelo Land Rover de um nativo.

              Lembro-me também com saudade - e não menos dor – de minha primeira expedição ao deserto de Gobi. Buscava o lendário cavalo-de-prjevalzki. Era julho, meio do verão, quando o clima é mais ameno. Na primeira noite, por sorte, pegamos uma temperatura de -24°C, o que infelizmente matou metade da expedição (minha culpa, não revelarei por que), mas aumentou enormemente nossa união, a ponto de expulsarmos do grupo, por unanimidade, diversos integrantes mais fracos nos dias seguintes. Foi um tempo muito bom. Éramos um time bastante coeso e determinado, o que não impediu futuras rixas. Ao percebermos que não encontraríamos tão cedo o animal, lá pela quinta ou sexta semana de expedição, houve bate-boca, confusão, algumas pessoas foram mortas e achamos melhor nos separar, o que se mostrou uma decisão das mais equivocadas. Por idéia minha, para que todos tivessem chances iguais de sobrevivência, as duas únicas bússolas do grupo (éramos cinco) foram pisoteadas. Em dez minutos estávamos todos perdidos e separados. Ainda me lembro da sensação de caminhar descalço naquele sol de 50°C, tropeçando em fósseis de lagartixas pré-históricas e bebendo da própria saliva. Passei cerca de uma semana assim. Em determinado momento pensei ter avistado um exemplar do cavalo-de-prjevalzki, mas era tão-somente um efeito da fadiga e da falta de nutrientes nas retinas. Há dias tinha acabado com as latas de Sustagem que roubara do grupo. A certa altura, sem ninguém com quem conversar, pensei em me matar, mas não havia como fazê-lo – minha faca desaparecera misteriosamente. Além do mais, alternava momentos em que queria me matar com outros em que acreditava já estar morto. De qualquer forma, fui salvo por um tanque chinês que fazia exercícios de tiro (em mim). Pensaram que eu era uma pedra. Atiraram, erraram, eu rolei dramaticamente e pronto.

           Enfim, caro leitor, que estas páginas sejam o testemunho de muitas outras viagens. Como disse certa vez Heinrich Barth,

“Wenn der Berg nicht zu Mohammed kommt, muss Mohammed zum Berg gehen.”

          Ou, numa tradução literal, “é preciso ter vontade à beça para realizar grandes coisas”. Vamos em frente.