III
O Mahangaatuamatua Von Scheissendorf era bastante barulhento. Mas isso foi apenas no início. Passados alguns dias, sequer lembrávamos que havia um motor a bordo. O som tornara-se parte da paisagem, algo inerente à vida, uma espécie de background inquestionável. De modo que, quando o barco parou, ninguém notou. Apenas Manolo ficou preocupado com o fato de a chaminé não expelir mais fumaça. Tentava desobstruí-la desesperadamente – Manolo estava sempre desesperado, sempre entupido de mate. Era um homem doente.
Foi Pelé quem primeiro percebeu que o barco não se movia. Mas viu Manolo na chaminé e achou que todos já soubessem. Ofendido por fazer papel de idiota, largou o timão e foi dormir. Alheio a tudo isso, eu continuava na proa, vasculhando o Atlântico Sul e sonhando que Dr. Sigmund Herrera perdia a voz para sempre. Foi então que avistei um iceberg. Um belo, majestoso iceberg. Azulado, gigantesco e salpicado de pingüins. Deslizava lentamente rumo ao nada. Acompanhando-o com minha luneta inglesa, entrei numa espécie de êxtase estético kantiano. Perdido em meu juízo reflexionante, não ouvia mais a ladainha de Dr. Herrera sobre os buracos de minhoca espaço-temporais, nem a música deprimente de Antocha. Tampouco ouvi os gritos de Karl, sugerindo que iríamos bater. Contemplando aquela montanha branca, aquela forma absurda e onírica, pensava em como a natureza parece ter algum sentido além do nosso entendimento. Parece querer nos dizer alguma coisa. Permaneci nesse estado romântico por algum tempo, até me deter nas pupilas quadradas dos pingüins. Aquilo me pareceu anormal. Não as pupilas em si, mas o fato de conseguir enxergá-las. Confuso, lembrei de Pascal: Nem o microscópio e nem o telescópio nos aproximam das coisas em si. Certo. A não ser, pensei, que as coisas se aproximem por vontade própria. Senti um pouco de frio. Foi quando descobri, tirando a luneta do rosto, que estávamos a pouco mais de duzentos metros do gelo. Fiquei profundamente magoado. Por que não me avisaram? Quando me virei para falar com Pelé, notei que a sombra do iceberg já cobria todo o barco. Não havia mais ninguém no convés, ninguém no timão. Então Karl apareceu na porta da cabine e perguntou se eu não gostaria de me amarrar em alguma coisa lá dentro, como o resto da tripulação já havia feito. Aceitei.
Como todos sabem, um iceberg possui aproximadamente nove décimos do seu volume submerso. Pensávamos que bateríamos de frente, mas na verdade encalhamos. O gelo submerso era mais raso do que pensávamos, e o barco apenas subiu um pouco, rangeu e adernou para a direita. Nada disso foi mito suave, e o fato de estarmos mal amarrados teve suas conseqüências. Antocha quebrou um dente e Pelé engoliu o cigarro. Manolo e Dr. Sigmund Herrera, embolados um no outro, xingavam em espanhol. Eu e Karl tivemos sorte, e o corpo dos outros tripulantes absorveu nosso impacto. Mal ou bem, todos se salvaram. Infelizmente o mesmo não aconteceu com nossos Mendozas. Uma boa parte das garrafas se quebrou. Tal perda teria conseqüências desastrosas num futuro próximo. Desnorteados e temerosos, escalamos o convés inclinado e fizemos um balanço da situação. Estávamos encalhados num bloco de gelo gigante, rodeados por pingüins barulhentos e a vários quilômetros da costa. Não tínhamos rádio, e a chance de um pedaço de gelo despencar sobre nossas cabeças e nos esmagar era considerável. Preocupado, distribuí tarefas. Solicitei a Manolo um laudo técnico do motor. Solicitei a Pelé que avaliasse o estado do casco. Solicitei a Dr. Sigmund Herrera que explorasse o iceberg o mais detalhadamente possível e durante muitas horas. Enganei-o dizendo que faríamos um mapa. Antocha, chupando gelo, pôs-se a pescar nosso almoço e Karl arranjou uma nova diversão: escorregar pelo convés. Era uma cena interessante. Pensando qual seria a utilidade daquilo, decidi estudar nossa posição. Concluí que devíamos estar próximos a Puerto San Julian ou Puerto Santa Cruz. Pensando qual seria a utilidade disso, juntei-me a Karl. Dias negros viriam.
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