domingo, 11 de abril de 2010

Origami no Cabo Horn - Segunda parte




 II
A viagem mal havia começado, quando algo terrível aconteceu: ao me debruçar sobre a proa, tentando encostar o nariz no casco o mais próximo possível da água, percebi que nossa nau não tinha nome. O antigo já estava ilegível, de modo que precisávamos rebatizá-la – e com urgência. Uma nave sem nome é uma maldição, um veículo caótico a serviço do desastre. Dependurado no casco, gritei de terror. Subi, e após refletir alguns minutos sobre a questão, reuni a tripulação e apresentei o problema, já introduzindo minha proposta. A meu ver, o nome da embarcação deveria ser forte, simples, poético, plural, marinho, reverente, bravo, claro, sintético, funcional, camoniano, neutro, apaziguador, célebre, catártico, direto, audaz, primitivo, simbólico, operacional, intertextual, nobre, festivo, naïf, expressivo, correto, sonoro, libertário, espirituoso, Sturm und Drang, coquete, austral, roxo, inspirador, referencial, sincero, altivo, socrático, mítico, salutar, belo e objetivo. Por isso pensei em Mahangaatuamatua, a sagrada canoa maori.  Após curto silêncio, todos fizeram sons guturais estranhos – o que encarei como um “sim, é perfeito”. Apenas Karl se opôs – como disse, Karl é um pouco teimoso. Achava o nome longo demais. Respondi que não era mais longo que Von Scheissendorf. Karl disse que era uma pessoa, não um barco. Eu disse a Karl que ele não era nem uma pessoa e nem um barco, mas um idiota. Então Karl me deu um soco e começamos a rolar pelo convés.Vinte segundos depois, paramos. Rolar não é uma boa idéia quando se está num barco. Ficamos tontos, enjoados e nos vomitamos. Todos riram muito daquilo, e por fim batizamos o barco de Mahangaatuamatua von Scheissendorf.
                O lado ruim de vomitar em seu único casaco é que, caso você esteja navegando para um círculo polar, não poderá contornar a situação usando duas ou três camisetas a mais. À noite, enquanto nossos casacos secavam da lavagem, Karl e eu abraçávamos os motores na praça de máquinas e rezávamos para que o dia seguinte não fosse tão frio. A probabilidade, claro, era muito pequena. Pelo menos tínhamos nossos vinhos Mendoza.
A viagem prosseguia, e os dias se tornavam terrivelmente repetitivos. Passava boa parte deles esquadrinhando o horizonte com minha luneta inglesa, procurando icebergs e baleias, ou qualquer coisa digna de interesse, sem muito sucesso. Dr. Sigmund Herrera ficava ao meu lado, tomando banho de sol sem camisa e monologando coisas enfadonhas sobre o cosmos. No início conversávamos, mas depois percebi que era desnecessário. Nosso cozinheiro, Antocha, era um russo standard: bruto, alcoólatra e tocador de acordeom. Um dia pedi para Antocha tocar um pouco, e ele nunca mais parou. Foi um grande erro. Às vezes tocava e chorava, dependendo da bebedeira. Mas pelo menos sabia cozinhar. Já nosso engenheiro Manolo passava os dias checando ininterruptamente cada parafuso da embarcação. Era uma pessoa doente, um argentino que detestava tango. Pela saúde mental da tripulação, encarreguei-o de pintar o nome do barco. Como não houvesse tinta, usamos fita engomada (um rolo inteiro).
De todos, Karl era o único entusiasmado. Depois de nossa briga, descobriu um passatempo curioso: tentar se comunicar com Pelé, nosso marinheiro chinês. De fato, aquilo parecia ter algum sentido. Ninguém sabia ao certo como Pelé tinha aparecido na embarcação. No começo, achei que era um conhecido de Antocha, e Manolo estava certo de que fugia da máfia chinesa, baseando sua teoria no fato de Pelé não possuir a ponta do indicador direito. Verdade ou não, era realmente uma figura estranha: ria de tudo, fumava compulsivamente e preferia sentar-se no chão. E ainda se chamava Pelé. Mas como parecia entender de navios, ficou responsável pelo timão. Karl realmente se dedicava. Acho que se sentia um pouco como aqueles cientistas que estudam de perto os grandes primatas. Desconfio que Pelé sentisse o mesmo a respeito de Karl. Dentre as muitas coisas que Karl descobriu, estava o importante fato de que Pelé era, de fato, chinês. Perdeu parte do dedo quando costurava uma bolsa Prada perto de Xangai. Já que estava manchada de sangue, a bolsa não poderia mais ir para Londres, e Pelé foi despedido. Como na China o valor de um dedo é maior que o valor de um cérebro, acabou imigrando para Buenos Aires - tinha uns parentes lá. Foi quando trabalhou no porto e aprendeu alguma coisa de navegação. Um dia, bebeu demais e acordou em nosso barco. Quando Karl lhe disse para onde estávamos indo, ele apenas riu. Imediatamente senti grande afeição por ele. Talvez fosse apenas um ignorante em geografia, mas tinha fibra de desbravador. E sobre seu nome, perece que era Pelé mesmo. Assombroso.
Os dias se arrastavam, o tempo estava bom, e não passava uma só noite em que não nos embebedássemos. Foi quando o barco parou. 


sábado, 3 de abril de 2010

Origami no Cabo Horn - Primeira Parte

                
                                                       
I   

O Cabo Horn é um local fascinante! Contornada pela primeira vez em 1616 pelos holandeses Jacob Le Maire e Willem Schouten, a quina sul da América é um convite a belos passeios e aventuras inesquecíveis sobre a rocha. Certa vez, num convescote na Bavária com meu amigo alemão Karl von Scheissendorf propus, entre um biscoito amanteigado e outro, uma expedição ao local. Juntaríamos alguns tripulantes num pequeno barco e partiríamos da Argentina. No caminho, faríamos uma emocionante homenagem póstuma a Le Maire e Schouten, assistiríamos à migração das baleias e dos icebergs e beberíamos vinho de Mendoza. Poderíamos até conhecer o El Niño. Karl prontamente aceitou, embora sua esposa, Frau Scheissendorf insistisse que fatalmente iríamos morrer. Argumentava que as tempestades locais, com ventos infernais de 50 nós, que emborcam navios, não eram apropriadas para pessoas que sequer sabiam nadar. Rimos e tomamos nosso chá.
Frau Scheissendorf não gostava de mim. Quase a deixei sem marido umas vinte vezes. Acho que começou a me odiar pra valer quando Karl voltou do Iêmen com uma bala na bacia e muita febre. Conheci Karl quando escalava o Matterhorn, nos Alpes. Houve uma avalanche e fiquei soterrado por várias horas, até que Karl por sorte pisou na minha coxa. Karl costumava escalar o Matterhorn – é montanhista, ao contrário de mim. Os pinos de ferro da bota machucaram bastante, e eu gritei. Ele notou que havia pisado em algo diferente e me cutucou com a vara de metal, o que me fez gritar várias outras vezes. E assim nos tornamos grandes amigos. Karl e eu realizamos memoráveis expedições juntos.
Montamos base em Buenos Aires no final de abril. Lá, reunimos a tripulação e definimos a rota. O único problema era o barco. Não tínhamos um. Passamos uma semana visitando estaleiros e conversando com gente do ramo, mas simplesmente não dava certo. Todos invariavelmente começavam a rir e nos indicavam algum barco grande, bonito e absurdamente caro. Estávamos quase dando o braço a torcer, quando finalmente encontramos a nave ideal. Próximo à nossa residência havia um pesqueiro à venda. Era um barco velho, enferrujado e de terceira mão. Sugeri que comprássemos, mas Karl se recusou – Karl é um pouco teimoso. De modo que fui obrigado a lhe explicar, pela centésima vez, meu ponto de vista: precisávamos de um barco macio, marcado pela vida no mar, confiável, que permitisse que pessoas inexperientes, como nós, navegassem no Cabo Horn. Argumentei que o fato de o barco não possuir rádio não era um grande problema. As chalupas viking também não possuíam, o que não impediu os vikings de chegarem ao Canadá no século X. Quanto à ferrugem e ao barulho (era bastante barulhento), eram detalhes estéticos. Diante desses argumentos, Karl compreendeu qual de nós estava sendo estúpido e compramos o barco.
Partimos no meio de maio, rumo ao sul. Nossa tripulação internacional de seis homens era composta por - além de mim e de Karl - Antocha, nosso cozinheiro russo; Manolo, nosso engenheiro e Dr. Sigmund Herrera, o astrofísico da embarcação – ambos portenhos, além de Pelé, o marinheiro chinês. Na carga, 150 garrafas de vinho (tínhamos um russo a bordo). Em alguns dias atingiríamos o Cabo Horn, latitude 50°.