segunda-feira, 10 de maio de 2010

Origami no Cabo Horn - Quarta Parte


 
IV
Karl começou a cantar My way. Sempre que está nervoso, Karl canta Sinatra. É um sinal de que as coisas não vão bem. Karl sempre foi um medidor natural de periculosidade. Quando no Camboja descobrimos que estávamos acampados sobre um campo minado, Karl cantou Sinatra. Quando numa caverna da Guatemala a luz da nossa última lanterna piscou e se apagou, Karl cantou Sinatra. Pensamos que sairíamos do iceberg em poucos dias, mas já estávamos há quase duas semanas encalhados. Quando Karl cantou My way, senti um arrepio na espinha.
Seria perda de tempo narrar aqui todos os terríveis acontecimentos que, somados, culminaram na expulsão de um dos tripulantes da embarcação. Por isso me aterei a três eventos especialmente desastrosos.
O primeiro deles – mas não o pior – foi a dura constatação de que o Mahangaatuamatua Von Scheissendorf jamais sairia do lugar.  Manolo passou dez dias morando na praça de máquinas, desmontando e remontando tudo inúmeras vezes, compulsiva e metodicamente. Mesmo assim, não compreendia por que o motor não funcionava. Frustrava-se. Aos poucos, seu desespero natural deu lugar a um comportamento selvagem e amedrontador. De Dr. Jekyll passou a Mr. Hyde. Tinha crises nervosas terríveis. Arremessava-se repetidas vezes contra a parede, muitas vezes de cabeça. Arrancava e depois comia o próprio cabelo, asfixiando-se. Tentava bater em Pelé com a chave inglesa, numa raiva primitiva. Tais crises eram apenas aplacadas quando Antocha o espancava. Nessas horas Pelé ria, chegava a gargalhar. Depois tossia por vários minutos, curvando-se até o chão – não é bom engolir cigarros.
O segundo evento trágico foi o fim de nossas reservas alcoólicas, que desencadeou uma sucessão de infortúnios. Aconteceu pelo sexto ou sétimo dia. Pouco antes, havíamos melhorado consideravelmente nosso cardápio, adicionando às nossas refeições um novo ingrediente – pingüim. Além de observá-los, passamos a comê-los. Como não suportávamos mais os ensopados de Antocha, nosso ânimo melhorou bastante. Além disso, era natural que comêssemos os pingüins. Estavam sempre pelo convés ou em volta do barco, de modo que bastava alguém esticar o braço, apanhar um e jogar na panela. Foram dias de grande fartura. Pena que durou pouco. Com o tempo, os pingüins se tornaram ariscos e raramente pegávamos algum. Tivemos que voltar ao ensopado, o que frustrou a todos. Quando o vinho acabou, foi como se uma bomba explodisse. Houve choro e ranger de dentes. E a culpa foi toda minha. Mais cedo ou mais tarde o vinho iria acabar, mas eu acelerei o processo. Desde que encalhamos, tomava a precaução da manter Dr. Sigmund Herrera sempre bêbado, de modo a torná-lo mais suportável e a fazê-lo dormir mais cedo e por mais tempo. Foi para o bem de todos.
O terceiro e o pior dos eventos foi um desdobramento do segundo. Quando o vinho acabou, Antocha entrou em depressão profunda. Prevendo que aquilo logo se transformaria em música, atirei seu acordeom no mar. Não tenho culpa pelo que aconteceu. Não podia saber que com isso cometia um crime contra a tripulação. Não podia saber que Antocha também possuía uma gaita. Meu estômago se revirou. Poucos instrumentos musicais possuem um poder destrutivo tão acentuado quanto a gaita. Quando ativada de maneira irresponsável, a gaita emite uma onda vibratória que causa irritação crescente e pode levar à loucura. Certa vez, na Austrália, presenciei uma expedição inteira de homens honestos sucumbir ante o efeito devastador de uma gaita de fole escocesa. O mesmo se repetia agora. Por causa dela, o mau-humor se alastrou pela tripulação de forma irreversível, e a expedição tornou-se um pesadelo com gosto de xarope, espesso e enjoativo. Os monólogos de Dr. Sigmund Herrera passaram a ter um tom queixoso que os tornava insuportáveis ao extremo. As galáxias passaram a reclamar do frio, as nebulosas da comida, e a matéria escura da claridade do iceberg. Karl e eu tramávamos. Por mais de uma vez tentamos roubar o instrumento de Antocha, mas ele estava muito desconfiado, sabia que seu acordeom não havia simplesmente desaparecido. Dormia com a gaita na cueca. A situação era desesperadora. A tensão, crescente. Foi aí que Karl cantarolou Sinatra, caminhando pelo convés. Era um momento crítico. Algo iria acontecer. Depois disso, como imaginei, as coisas atingiram um clímax.
Não lembro exatamente quem primeiro levantou a possibilidade de estarmos amaldiçoados. Também não sei quem primeiro sugeriu que Dr. Sigmund Herrera era nossa maldição. O que importa é que todos acataram com facilidade essa idéia. De fato, era uma idéia bastante razoável. Não havia outra possibilidade. Decidimos nos livrar de Dr. Sigmund Herrera. Ele, claro, discordou. Insisti, porém, que fizéssemos uma votação, para que nossa resolução fosse justa e democrática. Votamos. Havendo apenas um voto contra, nos juntamos, agarramos Dr. Sigmund Herrera e o arremessamos para fora do barco, na água. Então Manolo deu a partida no motor, que voltou a funcionar. Gritamos. A maldição havia acabado. Também houve muita alegria e surpresa quando, logo em seguida, o gelo sob a embarcação rachou e nos devolveu ao mar. Estávamos livres. Nos abraçamos e festejamos ainda mais. O dia estava claro, nossos espíritos renovados e a gaita de Antocha jazia agora num de meus bolsos – fui rápido e eficiente. Dr. Sigmund Herrera pedia para voltar, mas nós o ignoramos. Ajustada a rota, partimos.



sábado, 1 de maio de 2010

Origami no Cabo Horn - Terceira Parte



III

         O Mahangaatuamatua Von Scheissendorf era bastante barulhento. Mas isso foi apenas no início. Passados alguns dias, sequer lembrávamos que havia um motor a bordo. O som tornara-se parte da paisagem, algo inerente à vida, uma espécie de background inquestionável. De modo que, quando o barco parou, ninguém notou. Apenas Manolo ficou preocupado com o fato de a chaminé não expelir mais fumaça. Tentava desobstruí-la desesperadamente – Manolo estava sempre desesperado, sempre entupido de mate. Era um homem doente.

        Foi Pelé quem primeiro percebeu que o barco não se movia. Mas viu Manolo na  chaminé e achou que todos já soubessem. Ofendido por fazer papel de idiota, largou o timão e foi dormir. Alheio a tudo isso, eu continuava na proa, vasculhando o Atlântico Sul e sonhando que Dr. Sigmund Herrera perdia a voz para sempre. Foi então que avistei um iceberg. Um belo, majestoso iceberg. Azulado, gigantesco e salpicado de pingüins. Deslizava lentamente rumo ao nada. Acompanhando-o com minha luneta inglesa, entrei numa espécie de êxtase estético kantiano. Perdido em meu juízo reflexionante, não ouvia mais a ladainha de Dr. Herrera sobre os buracos de minhoca espaço-temporais, nem a música deprimente de Antocha. Tampouco ouvi os gritos de Karl, sugerindo que iríamos bater. Contemplando aquela montanha branca, aquela forma absurda e onírica, pensava em como a natureza parece ter algum sentido além do nosso entendimento. Parece querer nos dizer alguma coisa. Permaneci nesse estado romântico por algum tempo, até me deter nas pupilas quadradas dos pingüins. Aquilo me pareceu anormal. Não as pupilas em si, mas o fato de conseguir enxergá-las. Confuso, lembrei de Pascal: Nem o microscópio e nem o telescópio nos aproximam das coisas em si. Certo. A não ser, pensei, que as coisas se aproximem por vontade própria. Senti um pouco de frio. Foi quando descobri, tirando a luneta do rosto, que estávamos a pouco mais de duzentos metros do gelo. Fiquei profundamente magoado. Por que não me avisaram? Quando me virei para falar com Pelé, notei que a sombra do iceberg já cobria todo o barco. Não havia mais ninguém no convés, ninguém no timão. Então Karl apareceu na porta da cabine e perguntou se eu não gostaria de me amarrar em alguma coisa lá dentro, como o resto da tripulação já havia feito. Aceitei.

        Como todos sabem, um iceberg possui aproximadamente nove décimos do seu volume submerso. Pensávamos que bateríamos de frente, mas na verdade encalhamos. O gelo submerso era mais raso do que pensávamos, e o barco apenas subiu um pouco, rangeu e adernou para a direita. Nada disso foi mito suave, e o fato de estarmos mal amarrados teve suas conseqüências. Antocha quebrou um dente e Pelé engoliu o cigarro. Manolo e Dr. Sigmund Herrera, embolados um no outro, xingavam em espanhol. Eu e Karl tivemos sorte, e o corpo dos outros tripulantes absorveu nosso impacto. Mal ou bem, todos se salvaram. Infelizmente o mesmo não aconteceu com nossos Mendozas. Uma boa parte das garrafas se quebrou. Tal perda teria conseqüências desastrosas num futuro próximo. Desnorteados e temerosos, escalamos o convés inclinado e fizemos um balanço da situação. Estávamos encalhados num bloco de gelo gigante, rodeados por pingüins barulhentos e a vários quilômetros da costa. Não tínhamos rádio, e a chance de um pedaço de gelo despencar sobre nossas cabeças e nos esmagar era considerável. Preocupado, distribuí tarefas. Solicitei a Manolo um laudo técnico do motor. Solicitei a Pelé que avaliasse o estado do casco. Solicitei a Dr. Sigmund Herrera que explorasse o iceberg o mais detalhadamente possível e durante muitas horas. Enganei-o dizendo que faríamos um mapa. Antocha, chupando gelo, pôs-se a pescar nosso almoço e Karl arranjou uma nova diversão: escorregar pelo convés. Era uma cena interessante. Pensando qual seria a utilidade daquilo, decidi estudar nossa posição. Concluí que devíamos estar próximos a Puerto San Julian ou Puerto Santa Cruz. Pensando qual seria a utilidade disso, juntei-me a Karl. Dias negros viriam.