domingo, 17 de outubro de 2010

Origami no Cabo Horn - Sexta Parte


                                                 
VI


      Por alguma razão, quando informávamos alguém sobre nossa expedição, o resultado invariável era incredulidade com um quê de escárnio. Nas ocasiões em que dependíamos do informado para algo importante, não-raro a situação ganhava contornos dramáticos. Foi assim que Antocha quase quebrou o pescoço de um dono de armazém, que, não obstante termos lhe reiterado nossa necessidade de mantimentos de primeira ordem, não queria se desvencilhar de todo seu estoque de vinho “para um bando de gringos loucos”. Eu, por natureza inclinado a noções seculares de cordialidade e cavalheirismo, tentei conter a situação o máximo que pude dentro do âmbito diplomático. Como, porém, o vendedor motrava-se irredutível no seu ponto de vista equivocado, não hesitei em deixar Antocha esmurrar-lhe a fuça – mesmo porque, tentar impedi-lo seria tarefa das mais temerárias.

      Conto isso porque, ao passarmos de manhã pela fina costa atlântica do Chile, fomos abordados de maneira não muito delicada por um grupo de policiais da guarda costeira daquele país, que insistiam em nos rotular como...enfim, de muitas coisas simultâneas mas não muito esclarecedoras, nem a eles próprios. Ali e mais uma vez, nossos planos expedicionários (contornar o Cabo Horn física e simbolicamente, fazendo uma homenagem póstuma ao grande navegador Willem Schouten) não tiveram o crédito devido. Quando conheceram Manolo, a situação cresceu em tensão e complexidade. O fato de haver um argentino (portenho!) entre nós foi o bastante para os guardas chilenos ressignificarem sua aborrecida operação de rotina num ato prazeroso e degustativo de humilhações diversas. Primeiro, nos cobraram explicações detalhadas sobre o nome da embarcação. Repetimos a ladainha oito ou nove vezes; uma delas – pediram a Pelé - em chinês cantonês. Em seguida, fizeram com que espalhássemos todos os nossos pertences pelo convés, obrigando Manolo a contar e recontar tudo o que levávamos, até o mais ínfimo broche enferrujado (o mais curioso foi constatar que todos haviam tomado algum pertence de Dr.Sigmund Herrera para si – isso causou algum constrangimento, mas também houve quem risse). Depois foi a vez de testar se El Niño sabia calcular: mandaram-no dividir o número total de pertences por todos os números primos até cinqüenta e nove. Claro que ele não passou do cinco, e todos tivemos que ajudar. Sobre Antocha, basta dizer que estava de ressaca e, como não entendesse nada do que acontecia, deitou-se gemendo e assim permaneceu. Os policiais foram compreensivos, como se deve ser na presença de alguém que está à beira da morte. No fim, pulamos alguns polichinelos e ficamos livres.

      Felizmente conseguimos esconder dos policiais a identidade de El Niño - certamente iriam querer espancá-lo. Disse a eles que o garoto era filho de Karl, o que lhes pareceu bem convincente, visto que alemães são quase extraterrestres. Se bem que no meio dos cálculos começasse a chover granizo, mas acho que nunca ligaram uma coisa à outra. Quando partiram, depois de apreender algumas garrafas de vinho e um par de meias Armani de Pelé, o céu estava azul.

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