V
Depois de termos convidado Dr. Sigmund Herrera a se retirar, nossa sorte mudou drasticamente. Pela primeira vez desde o início da viagem, pude escutar o som do mar. Num dado momento, avistei uma família de baleias migrando. Emocionado, escrevi uma poesia:
Do fundo das águas turvas,
Emerge um dorso antigo.
Na cinzenta cauda bifurcada,
Dois mundos e dois tempos
Insolúveis, inacessíveis,
Espiam a alvorada.
Chegando mais perto, descobri que não eram baleias, só um monte de entulho. Mesmo assim, nossa sorte era esmagadora. No meio do lixo, encontramos um aquecedor portátil seminovo. Pelé encontrou um Ray-Ban e ficou parecido com o presidente da Coréia do Norte. Com o cigarro enfiado na boca, era um capanga da Yakuza. Sem o cigarro e o Ray-Ban, era Pelé. Estávamos rindo disso, quando Antocha pescou seu terceiro marlin em menos de quatro horas. Esse era maior que Karl. Passamos a ter comida para uma semana, mas nenhuma gota de álcool - e destilados e fermentados não podem ser pescados. Mas o destino estava do nosso lado: Manolo descobriu no porão uma caixa com 500 pesos em dinheiro, e decidimos parar para comprar mais Mendozas.
Aportamos numa pequena cidade cujo nome é desimportante. Desembarcamos, encontramos um mercado, compramos todas as garrafas, vendemos o aquecedor, compramos mais garrafas, alguns mantimentos e retornamos. Foi quando encontramos El Niño. Era um pivete com cara de índio que perguntou se não poderia vir conosco. Percebi que estava nervoso, olhando para os lados repetidas vezes. Por alguma razão, sentia que conhecia o pivete de algum lugar. Ele contou que algumas pessoas queriam espancá-lo, por isso precisava fugir. Manolo, ao saber de quem se tratava, também quis espancá-lo. Antocha também. Confesso que também pensei em espancá-lo, mas tive pena e aceitei El Niño como tripulante, não permitindo que o agredissem. Afinal, a sorte estava do nosso lado. Karl não gostou da idéia – Karl é um pouco teimoso –, dizendo que era uma imbecilidade levar El Niño como tripulante num barco rumo ao Cabo Horn. Rebati com uma citação da Arte da Guerra:
Mantenha os amigos por perto, e os inimigos mais perto ainda.
Karl concordou, mas observou que não teríamos outra oportunidade de nos livrarmos dele, o que nos tornaria, de certa forma, reféns do El Niño. Refleti um pouco, e disse a Karl que sempre teríamos a opção de convidá-lo a se retirar, como fizemos com Dr. Sigmund Herrera. Isso deixou Karl mais calmo. Já Manolo, não. Precisava arrumar alguma coisa para se preocupar. Agora que o barco estava novamente sadio e funcional, e que Pelé tornara-se um pouco menos estranho, buscava um novo alvo para extravasar sua neurose obsessiva. Não cedi.
Faltava pouco para atingirmos o Cabo. Passando a latitude das ilhas Malvinas, entramos no estreito domínio chileno que corta o sul da Argentina, e o frio era algo que não se podia ignorar. Como toupeiras, passávamos a maior parte do tempo enfurnados na casa de máquinas, jogando cartas, bebendo e gaguejando - já que nossos maxilares batiam ininterruptamente. Uma vez mordi a língua e saiu um pedaço pequeno. Também descobrimos que El Niño era um excelente entertainer. Hiperativo, nos divertia com suas imitações. A melhor de todas era a da massa de ar quente perdida nos Andes. Era tão interessante que até Manolo ria. Num raro momento de sobriedade, alguém perguntou por que tínhamos vendido o aquecedor. Como houvesse muitas versões conflitantes, mudamos de assunto.
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