sábado, 27 de março de 2010

Lembranças de Sumatra e Gobi



            O mundo é um local fascinante. Não importa de onde se parta, há sempre um lugar para se chegar. E como são extraordinários os lugares que não conhecemos! Que frescor de informações! Sinto um arrepio na espinha e uma dor enorme na patela esquerda ao recordar minha primeira expedição. Éramos seis jovens idiotas à procura de diversão e mulheres, mas também cinco almas sedentas de achados inenarráveis pelas bordas do mundo. Naquele ano (não me atrevo a dizer qual), estávamos decididos a encontrar a nascente do Sungai Hitam, um rio desimportante localizado numa inóspita ilha vulcânica perto de Sumatra. Foram cinco meses de horrores e penúria absoluta até encontrarmos o quase invisível filete d`água que pingava da rocha. Apenas uma parte do grupo estava presente: eu - que já não possuía a vesícula, extraída numa cirurgia improvisada com um zíper de calça - e mais dois companheiros - ambos padecendo de estranhas pústulas nas axilas e na virilha. Os demais haviam morrido. Não obstante, aquele foi um momento de grande alegria. Tiramos nossas mochilas (os que conseguiam), nos cumprimentamos cordialmente, registramos nossos nomes a giz na rocha ao lado (a máquina fotográfica havia molhado no caminho), lemos alguns trechos de Thoreau e Humboldt, nos abraçamos cordialmente, vestimos nossas mochilas e voltamos. Logo nos perdemos e sofremos mais um mês de privações agudas, quando finalmente fomos resgatados pelo Land Rover de um nativo.

              Lembro-me também com saudade - e não menos dor – de minha primeira expedição ao deserto de Gobi. Buscava o lendário cavalo-de-prjevalzki. Era julho, meio do verão, quando o clima é mais ameno. Na primeira noite, por sorte, pegamos uma temperatura de -24°C, o que infelizmente matou metade da expedição (minha culpa, não revelarei por que), mas aumentou enormemente nossa união, a ponto de expulsarmos do grupo, por unanimidade, diversos integrantes mais fracos nos dias seguintes. Foi um tempo muito bom. Éramos um time bastante coeso e determinado, o que não impediu futuras rixas. Ao percebermos que não encontraríamos tão cedo o animal, lá pela quinta ou sexta semana de expedição, houve bate-boca, confusão, algumas pessoas foram mortas e achamos melhor nos separar, o que se mostrou uma decisão das mais equivocadas. Por idéia minha, para que todos tivessem chances iguais de sobrevivência, as duas únicas bússolas do grupo (éramos cinco) foram pisoteadas. Em dez minutos estávamos todos perdidos e separados. Ainda me lembro da sensação de caminhar descalço naquele sol de 50°C, tropeçando em fósseis de lagartixas pré-históricas e bebendo da própria saliva. Passei cerca de uma semana assim. Em determinado momento pensei ter avistado um exemplar do cavalo-de-prjevalzki, mas era tão-somente um efeito da fadiga e da falta de nutrientes nas retinas. Há dias tinha acabado com as latas de Sustagem que roubara do grupo. A certa altura, sem ninguém com quem conversar, pensei em me matar, mas não havia como fazê-lo – minha faca desaparecera misteriosamente. Além do mais, alternava momentos em que queria me matar com outros em que acreditava já estar morto. De qualquer forma, fui salvo por um tanque chinês que fazia exercícios de tiro (em mim). Pensaram que eu era uma pedra. Atiraram, erraram, eu rolei dramaticamente e pronto.

           Enfim, caro leitor, que estas páginas sejam o testemunho de muitas outras viagens. Como disse certa vez Heinrich Barth,

“Wenn der Berg nicht zu Mohammed kommt, muss Mohammed zum Berg gehen.”

          Ou, numa tradução literal, “é preciso ter vontade à beça para realizar grandes coisas”. Vamos em frente.


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