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O Cabo Horn é um local fascinante! Contornada pela primeira vez em 1616 pelos holandeses Jacob Le Maire e Willem Schouten, a quina sul da América é um convite a belos passeios e aventuras inesquecíveis sobre a rocha. Certa vez, num convescote na Bavária com meu amigo alemão Karl von Scheissendorf propus, entre um biscoito amanteigado e outro, uma expedição ao local. Juntaríamos alguns tripulantes num pequeno barco e partiríamos da Argentina. No caminho, faríamos uma emocionante homenagem póstuma a Le Maire e Schouten, assistiríamos à migração das baleias e dos icebergs e beberíamos vinho de Mendoza. Poderíamos até conhecer o El Niño. Karl prontamente aceitou, embora sua esposa, Frau Scheissendorf insistisse que fatalmente iríamos morrer. Argumentava que as tempestades locais, com ventos infernais de 50 nós, que emborcam navios, não eram apropriadas para pessoas que sequer sabiam nadar. Rimos e tomamos nosso chá.
Frau Scheissendorf não gostava de mim. Quase a deixei sem marido umas vinte vezes. Acho que começou a me odiar pra valer quando Karl voltou do Iêmen com uma bala na bacia e muita febre. Conheci Karl quando escalava o Matterhorn, nos Alpes. Houve uma avalanche e fiquei soterrado por várias horas, até que Karl por sorte pisou na minha coxa. Karl costumava escalar o Matterhorn – é montanhista, ao contrário de mim. Os pinos de ferro da bota machucaram bastante, e eu gritei. Ele notou que havia pisado em algo diferente e me cutucou com a vara de metal, o que me fez gritar várias outras vezes. E assim nos tornamos grandes amigos. Karl e eu realizamos memoráveis expedições juntos.
Montamos base em Buenos Aires no final de abril. Lá, reunimos a tripulação e definimos a rota. O único problema era o barco. Não tínhamos um. Passamos uma semana visitando estaleiros e conversando com gente do ramo, mas simplesmente não dava certo. Todos invariavelmente começavam a rir e nos indicavam algum barco grande, bonito e absurdamente caro. Estávamos quase dando o braço a torcer, quando finalmente encontramos a nave ideal. Próximo à nossa residência havia um pesqueiro à venda. Era um barco velho, enferrujado e de terceira mão. Sugeri que comprássemos, mas Karl se recusou – Karl é um pouco teimoso. De modo que fui obrigado a lhe explicar, pela centésima vez, meu ponto de vista: precisávamos de um barco macio, marcado pela vida no mar, confiável, que permitisse que pessoas inexperientes, como nós, navegassem no Cabo Horn. Argumentei que o fato de o barco não possuir rádio não era um grande problema. As chalupas viking também não possuíam, o que não impediu os vikings de chegarem ao Canadá no século X. Quanto à ferrugem e ao barulho (era bastante barulhento), eram detalhes estéticos. Diante desses argumentos, Karl compreendeu qual de nós estava sendo estúpido e compramos o barco.
Partimos no meio de maio, rumo ao sul. Nossa tripulação internacional de seis homens era composta por - além de mim e de Karl - Antocha, nosso cozinheiro russo; Manolo, nosso engenheiro e Dr. Sigmund Herrera, o astrofísico da embarcação – ambos portenhos, além de Pelé, o marinheiro chinês. Na carga, 150 garrafas de vinho (tínhamos um russo a bordo). Em alguns dias atingiríamos o Cabo Horn, latitude 50°.
Goste muito desse texto hahahahaha ri sozinha aqui em casa. Que cara sem noção! Quero muito continuar lendo as empreitadas loucas dele sem usar do instinto de sobrevivência.
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